"A maior necessidade do mundo é a de homens; homens que não se comprem nem se vendam; homens que no íntimo da alma sejam verdadeiros e honestos; homens que não temam chamar o pecado pelo seu nome exato; homens cuja consciência seja tão fiel ao dever como a bússola o é ao pólo; homens que permaneçam firmes pelo que é reto, ainda que caiam os céus." Ellen G. White


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

A Velha Costureira

Recolhia- se sempre cedo, no crepúsculo. Igualmente, acordava cedo. Na verdade, quem a acorvada era o velho colchão de molas que já há anos o marido falecido lhe dera de presente das bodas de prata e que, devido ao longo tempo vinha- se envelhecendo.
Espreguiçava- se com cuidado, devido ao problema das juntas. Calçava seu chinelinho, tateava a bengala na luz difusa de seu humilde casebre e ia fazer a toillette. Depois do gargarejo, recolocava sua dentadura e assim seu dia sempre começava.
Podia- se ouvir de longe os passos arrastados por sobre o assoalho desgastado até a máquina de costura. Porém, antes de tudo, a velha senhora não abria mão de desenterrar sua antiga realidade do fundo do baú. Literalmente. Havia um baú enorme, trancado à sete chaves. Medo tinha não sei do que. Então, à luz da lamparina ia até o sótão buscar a chave. Em meio ao estranho ritual, a velha ia recriando memórias e alimentando velhas ilusões a cada vestido tirado do velho baú. Cobria- se de renda enquanto admirava seu rosto enrugado no espelho, como se suas áureas ainda fossem coradas como pêssego e seus lábios fossem tão jovias como naquele momento se sentia. Seus olhos brilhavam e antes que se sentasse em sua cadeira acolchoada para o trabalho, inspirava- se toda. Estava pronta para mais um dia de trabalho. Costuraria até o pôr- do- sol. Lembrava- se agora de seus antigos moldes de ateliê que já há tanto tempo havia criado para ricas senhoras e mimadas moças. No tempo em que a vida era uma festa e que buquês de rosas e caixas de chocolate lhe faziam honra a cada jantar com o homem que desde a infância amara. Mas por fatalidade, viera a falecer de tuberculose.


- Preciso me concentrar. Repetia a velha para si mesmo. Ainda hei de retomar com êxito minhas luxuosas criações. Estou falida, mas eu hei de me reestabelecer e conquistar novamente o prestígio de todos nessa cidade.


Agulhas, cetins, botões e manequins serviam- lhe de companhia em meio há tanto trabalho. às vezes sentia- se cansada, outra hora mais disposta e assim prosseguia. Até que sentiu sede. Quando foi até a cozinha pegar um cópo d'água, e em meio aos seus devaneios voltou até a sala, quando ouviu a sineta da porta soar.


- Quem é? Quiz saber a senhora.


- Abra a porta!


- Mas quem é? Insistiu a velha.


Não obteve resposta. Foi com receio até a porta e ao abrir deparou- se com um senhor em prantos.


- O que houve? Posso ajudá- lo?


- Apenas ouça. Na juventude seu amado e eu éramos muito amigos. Eu o amava como um irmão. Ele tentou esconder sua doença, mas não conseguiu. Eu sempre soube e lamentei muito pela senhora não ter desconfiado. Apesar que não poderíamos fazer nada, já que naquela época não havia cura para tal enfermidade. Então, um dia quando sentia- se muito debilitado, como que prevendo o dia de sua morte , entregou- me um testamento com todos os bens que ele guardava em seu cofre pessoal no banco em que trabalhávamos. Porém, devido ao meu egoísmo, aproveitei- me de sua fragilidade e peguei a senha de seu cofre com a desculpa de entregá- la a você, um dia depois ele faleceu. Devo - lhe perdão por tal ato. Uma vez que durante muito tempo fizeste com que pensas- te que ele a abandonará em seus últimos momentos. Mas ele não fez por mal. Só não queria que a senhora sofresse. Então, com meu orgulho no chão, devolvo- lhe o que de fato sempre lhe pertenceu.


Dizendo isso, se foi.


A velha boquiaberta, tentou apoiar- se sem sucesso, caindo no chão em prantos e balbucios. Arrastou- se até o velho baú e lemantou por ter desconfiado do seu bom marido. Recordou- se do diário que escondera no fundo, antes mesmo dos vestidos, quando debrussou- se sobre a lateral, tentando encontrar suas vívidas memórias relatas minuciosamente nas páginas desgastadas do velho caderno. Não encontrava, então, desesperada, entrou no baú quando vira uma antiga fotografia de seu esposo por cima do caderno. Lá ficou, até que pôr- do- sol passou. Lia, recordava, lamentava. E de tanto que chorava suas lágrimas enxarcavam. Pendia- lhe dos olhos, molhavam- lhe a face, as páginas o testamento, tudo. Lá ficou até que o coração acalmou. De tanto que chorou. E de tanto que chorou, cessaram - lhe as forças até que seu passado ali ficou. Juntamente com ela, seu coração e suas memórias sepultou. Pra sempre, naquele velho baú.


(Adaptação de 'A Moça Tecelã', de Marina Colasanti)

3 comentários:

Rodrigo P. Marques disse...

Muito bem escrito, gostoso de ler e extremamente adorável. Meu parabéns!

Marina P. disse...

Muito obrigada, Rodrigo!Escrevi esse texto pra facul, fazendo uma adptação do original - A Moça Tecelã.
Saiba que é uma honra receber elogios do artista que é vc! Parabéns pra ti tb! Tudo de bom!

Rodrigo P. Marques disse...

Olá Marina, fico feliz que goste dos meus textos, e obrigado pelas palavras. :)

Com relação aos seus, estão cada dia melhores. Sempre que passo por aqui pra dar um conferida, tenho uma boa surpresa.